[Plantão Esparadrapo] O campeão
Publicado em 22 de maio de 2026

Dia desses eu e o Cirurgião Acerola estávamos atravessando aquele interminável corredor do hospital, desses que parecem ter vida própria. Hospital é assim… a gente entra por uma porta e, quando percebe, já caminhou quilômetros entre quartos, aparelhos apitando e pessoas indo e vindo com pressa.
Foi então que avistamos uma cena curiosa. Lá vinha um rapaz caminhando num passo acelerado, sorriso no rosto, como quem estava atrasado para pegar o último ônibus da rodoviária. Atrás dele, uma moça, provavelmente enfermeira, tentava acompanhá-lo enquanto empurrava um suporte cheio de fios, soro e uma maquininha que apitava sem parar. Confesso que por alguns segundos achei que fosse um novo modelo de detector de velocidade hospitalar. Hoje em dia a tecnologia inventa cada coisa…
Paramos para observar a cena passar diante dos nossos olhos. O rapaz seguia firme, determinado, enquanto a moça quase participava de uma prova olímpica para não perder o compasso. Olhei para o Cirurgião Acerola e pensei: “Esse cidadão está treinando escondido aqui no hospital.”
Os dias foram passando e a história se repetia. Corredor vai, corredor vem, lá estava ele novamente em sua caminhada veloz. Às vezes acompanhado por uma enfermeira diferente, mas sempre com o mesmo sorriso no rosto. E sorriso em hospital chama atenção da gente, porque ali dentro ele vale ouro. Num desses encontros, resolvemos perguntar: "Meu amigo, você está treinando para a São Silvestre? Não é porque chamam de corredor que é para correr aqui dentro!" Ele deu aquela risada rápida e respondeu: "Assim fosse…" E continuou andando sem diminuir o ritmo.
Ficamos olhando ele se afastar corredor adentro enquanto começávamos nossas teorias altamente científicas: "Será que está fugindo de alguma injeção?". "Será que deve dinheiro e encontrou o cobrador?". "Será que está com dor de barriga?"
Mas no fundo, observando aquela cena repetidas vezes, percebi algo bonito. Talvez ele não estivesse treinando para uma maratona de rua. Talvez estivesse treinando para outra corrida… dessas que a vida impõe sem aviso. Porque dentro de um hospital cada passo tem um significado diferente. Às vezes caminhar alguns metros já é uma vitória gigantesca. Às vezes sorrir enquanto os aparelhos apitam é um ato de coragem que ninguém vê. E ali estava aquele moço, transformando corredores frios em pista de superação.
Nós, Cirurgiões Palhaços, aprendemos cedo que existem pessoas que despertam alegria sem dizer uma única piada. Ele era uma delas. Corria não para fugir da vida… mas justamente para continuar vivendo. Ainda não descobrimos se ele participou da São Silvestre, mas uma coisa eu posso garantir: naquela maratona silenciosa dos corredores do hospital, ele já é um campeão.
Artista: Eliseu Pereira
Palhaço: Cirurgião Gaguelho
Cidade: Campinas-SP
Hospital: PUC
Mês: Abril
Ano: 2026